
Depois que o Burning Jesus terminou, ouvi dizer que Eduardo largou a bateria e voltou a colecionar selos. Césinha foi para Londres, lavar pratos e tocar. Voltou em três meses, completamente fodido e sem grana. Acabou retomando a faculdade de Direito, e um amigo em comum me garantiu que seu sonho agora era prestar concurso pra juiz. Ele queria tanto conseguir isso que estava até estudando pra passar, mas isso talvez fosse um pouco de exagero de quem me contou a história. O fato é que, enquanto esperava pela prova, Césinha trabalhava como caixa no Banco do Brasil. E eu? Eu caminhava a esmo, olhando fixamente para as árvores do parque, tentando ver através delas, triste e desorientado. Eu não tinha mais banda, nem dinheiro, nem Larissa, nem nada. Ela não estava grávida coisa nenhuma e havia me trocado pelo guitarrista de uma banda de heavy metal, um poser desgraçado que morava em Santo André. Mas não é sobre isso que quero falar. O fato é que as coisas ficaram tão confusas e cinzentas para mim depois do fim da banda que eu até... Arrumei um emprego! Numa loja de discos. Trabalharia lá enquanto não arrumasse nada melhor, dizia eu para o meu pai, quase acreditando. Época triste. Quase cortei o cabelo. Parei de tocar guitarra. E só comia salada. Devo ter emagrecido uns 10kg.
Eu bem que poderia terminar por aqui, o Burning Jesus já estava acabado e essa é a história da banda, não meu livro de memórias. E eu até terminaria, não fosse algo que aconteceu algum tempo depois.
Por alguma razão, desconhecida até para mim, uma noite resolvi ir de novo ao Jet Black, como fazia antigamente. Era sábado e fui a um bar com dois amigos do tempo de faculdade, no final da tarde. Bebemos. Eles me contaram como suas vidas estavam indo bem, a carreira, o escritório, o carro. Um deles ia até casar (em dezembro) e estava estranhamente animado. Eu permanecia quieto. Só bebia. E sorria de vez em quando, para ser agradável. Ultimamente eu vinha fazendo um esforço enorme para me encaixar no que alguns chamavam de “ mundo normal” ou “ vida real”. A confraternização acabou por volta das nove da noite, eles iam correndo encontrar suas namoradas e se ofereceram para me deixar em casa. A essa altura, eu já estava agradavelmente anestesiado pelo álcool, por isso recusei a gentileza. Fiquei ali, bebendo e lembrando da minha banda até às 11h, quando tomei uma decisão: pedi a conta, paguei, entrei num táxi e fui para o Jet Black.
Chegando lá, vi uma banda montando sua parafernália no palquinho imundo de sempre. Eram três meninas que de longe pareciam os caras do The Cure. Acabei vendo também um rosto conhecido ao lado de uma moça. Pensei que talvez fosse bom falar com alguém, mas eu estava em um estado de tristeza tão lastimável que quase não quis me aproximar do Norberto e da menina com quem ele conversava. Após alguns instantes de indecisão, encostei do lado deles, a lata de cerveja na mão. Os dois nem notaram minha presença, ou fingiram que não notaram. Foi então que reparei melhor na moça: alva, que nem neve, a pele quase transparente. Cabelos negros, olhos azuis profundos, vestido preto. Era uma beldade gótica e eu estava em estado de choque. Antes que eu pudesse esboçar alguma reação diante de tanta beleza, a guitarrista da banda se inclinou do palco na direção dela; estávamos bem de frente para ela.
- Você não vem?- disse a garota para a amiga do Norberto.
- Vou- respondeu ela, e depois, virando para nós, disse sorrindo: Bom, deixa eu ir que tenho que tocar...
A guitarrista estendeu a mão para ela, que subiu no palco sem esforço algum, leve e despreocupada. Em seguida, a bela aproximou-se do baixo, colocou a correia e ligou-o no amplificador com elegância, como se estivesse acostumada a fazer aquilo todo dia. Tocou as cordas brincando, só para ver se estavam afinadas. Estavam. A essa altura a banda toda já estava preparada. A beldade chegou perto do microfone e disse apenas “boa noite!”. Depois virou para trás, olhou para a baterista e fez que “sim” com a cabeça. A moça da bateria sorriu, levantou os braços e bateu as baquetas...”1, 2, 3, 4!”. E elas começaram a tocar.
Trêmulo, desnorteado, virei para o Norberto e berrei minhas últimas palavras em seu ouvido, antes de me abandonar completamente àquele instante:
- Meu, que mulher linda! Como ela se chama?
- Kika - respondeu ele, sem tirar os olhos do palco.
“Kika”, repeti eu, incrédulo. Senti uma bola de fogo nascendo da minha barriga, descendo até o meu sexo e subindo de novo pela minha espinha, até explodir na minha cabeça. Eu estava vivo novamente.
FIM